Pular para o conteúdo principal

A alocação de recursos na pandemia pela COVID-19: aspectos éticos

 

    No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) garante o acesso universal aos serviços de saúde por parte da população. Entretanto, a crise de saúde pública atual fez emergir a escassez de recursos para atenção à saúde, desfiando a ética das instituições de saúde ao terem que lidar com um número elevado de pacientes e capacidade técnico-operacional limitada. Nunca antes na história isso aconteceu de maneira tão rápida e intensa quanto a situação imposta pela pandemia por COVID-19.

    Ficou evidente que o mundo não estava preparado para lidar com um agravo a saúde de tal magnitude. A falta de planejamento prévio frente o risco iminente de escassez de recursos pode acarretar graves consequências (como o uso inadequado dos recursos disponíveis, culminando em vidas perdidas por falta de assistência. Assim, o objetivo neste contexto é otimizar os recursos disponíveis, minimizar riscos e danos tanto aos indivíduos quanto aos próprios serviços de saúde e consequentemente à sociedade.

    Há uma diversidades de questões bioéticas intrínsecas neste contexto uma vez que envolve a gestão de recursos escassos inferindo a necessidade de se estabelecer critérios para selecionar, dentre aqueles com maior gravidade, quem terá acesso aos leitos de Unidade de Terapia Intensiva por exemplo, bem como aos demais insumos e serviços necessários à sua sobrevida.

    Como o princípio ético primordial a ser considerado continua sendo a dignidade humana, todo cidadão deve ter direito a triagem para destinação dos recursos, a qual deve ocorrer a partir de critérios claramente estabelecidos, de forma justa e objetiva, devendo o indivíduo ser informado sobre seu estado de saúde e sobre sua situação frente aos critérios estabelecidos.

    A exemplo tomemos os critérios de admissão em UTI, que se estabeleceram num contexto que antecedeu a pandemia pela COVID-19. Normatizadas pela Resolução nº 2.156/2016 do Conselho Federal de Medicina (CFM), a admissão neste setor critico se pauta em escalas de prioridades que deverão ser aplicadas para seleção do paciente. Se antes da pandemia tal tomada já era geradora de estresse, no cenário da pandemia este fator passa a ser agravado e, portanto, é necessário empenho dos estudiosos da ética para auxiliar os profissionais numa escolha solida pauta em princípio ético defendível.

    Fato que chama atenção é de que essa escolha não deve ser responsabilidade dos profissionais que atuam na linha de frente ao combate da doença, vistos que estes já se encontram desgastados física e mentalmente e acrescer-lhes mais esta responsabilidade traz risco de agravar a condição de saúde do profissional. Neste aspecto prima-se pela integridade do profissional visto que há riscos de falhas na tomada de decisão, o que poderá refletir também no paciente.

    De fato não é fácil escolher. Embora a pandemia possua caráter emergencial o Brasil caminha na elaboração de documentos para nortear as difíceis escolhas frente a escassez de recursos no âmbito da saúde. O primeiro protocolo foi publicado pela Associação Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB) em abril de 2021. O documento explicita que os critérios estabelecidos para alocação de recursos devem ser claros, objetivos, cientificamente estruturados, pautados na ética e alinhados aos aspectos legais.

    A associação também defende o ponto de vista que a decisão não deve recair sobre os profissionais atuantes na assistência e portanto estabeleceu como critério a priorização de pacientes com maior chances de sobreviver e promover a equidade possibilitando ao indivíduo passar por todos os ciclos da vida. Mais adiante o protocolo foi revisado após alguns apontamentos e optaram de retirar a idade como um dos critérios de elegibilidade, visto que possui caráter discriminatório o que seria um ato inconstitucional.

    A partir deste documento, vários outros movimentos foram realizados no país e demais documentos foram publicados com o intuito de aprimorar os critérios para priorização da alocação dos recursos escassos. Assim, é necessário reflexão e questionamentos acerca destes documentos para que os critérios estabelecidos sejam de fato éticos e justos, que visem proteger a dignidade humana, a igualdade e que não haja discriminação para a distribuição dos recursos escassos. 

                                   

 

                                                Natalia Bianchini Dodo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Importância dos fungos para a produção de pigmento como a melanina e como eles podem ser aplicados na indústria

  Por Brenda Silvia Tomichá de Oliveira   Pesquisadores da Tailândia e do Japão trabalhando juntos descobriram que o fungo Spissiomyces endophytica é capaz de produzir pigmentos, em especial a melanina e estudam suas possíveis aplicações!                         Os fungos são seres que podem ser encontrados nos lugares mais diversos e hostis ao redor do mundo, como um bolor de pão no armário, brotando em regiões vulcânicas, vivendo em zonas polares e até mesmo no nosso corpo! Muitas vezes os fungos são vistos como algo nocivo por serem associados com doenças conhecidas como “micoses”, mas os fungos são utilizados ao longo de décadas pela humanidade e nos oferecem inúmeros benefícios, sendo eles os responsáveis por reciclar todos os materiais orgânicos que caem no chão, cuidando assim dos ecossistemas, mas eles também são aplicados para a produção de pães, vi...

Síntese e atividade antitripanossoma: Em busca de novos candidatos a fármacos para doença de chagas

  A doença de Chagas ou tripanossomíase americana é considerada um problema de saúde pública no brasil e em toda a américa latina. Segundo a Organização mundial da saúde (OMS), estima-se que existem cerca de 6 a 7 milhões de pessoas infectadas mundialmente. Apesar do grande número de infectados, é uma doença considerada negligenciada. Isso pois existe um baixo interesse da indústria farmacêutica para investir na descoberta de novos tratamentos mais eficazes e com menos efeitos adversos.   A doença é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e é transmitida através do contato com as fezes do inseto triatomíneo, conhecido popularmente como barbeiro, durante a picada do mesmo. A infecção pelo protozoário também pode ocorrer de forma oral pelo consumo de alimentos contaminados por fezes de triatomíneos infectados, através da transfusão sanguínea, transplante de órgãos e a transmissão vertical, que é a passagem da infecção da mãe para o bebê . Atualmente, o tratamento da doen...

Variação do químico de defesa no bicho-pau.

     Para evitar a predação, as diversas espécies de bicho-pau conseguem utilizar dois meios de defesa para sua sobrevivência. A primeira forma de se protegerem, é a camuflagem. Devido sua semelhança com um graveto, eles conseguem utilizar características do ambiente em que vivem para se esconderem de predadores. A segunda é menos conhecida, mas estes indivíduos pertencentes a ordem Phasmatodea, possuem a habilidade metabólica em utilizar muitos componentes de sua alimentação para produzir substâncias químicas de defesa por um processo chamado de biotransformação. Algumas espécies de bicho-pau possuem a capacidade de produzirem e liberarem uma substância líquida adstringente, junto a um gás lacrimogênio. No trabalho, “Developmental and Geographical Variation in the Chemical Defense of the Walkingstick Insect Anisomorpha buprestoides ”, o pesquisador Dr. Aaron Dossey verificou quais químicos de defesa que a espécie de bicho-pau A.buprestoides pode ter em seis locais disti...